Do sincretismo ao novo humanismo do zeitgeist contemporâneo
São inúmeras, ao longo da história, as tentativas de pensadores brilhantes de diversas áreas, em concatenar a ciência materialista com uma filosofia transcendental. No campo das artes visuais, sobretudo, tratando-se de arte contemporânea, essa tendência parece sempre caminhar em busca de um conceito de humanismo renovado.
O que se pode perceber num momento de rápida apreensão a partir da totalidade das obras observadas na exposição individual do artista plástico Júlio Ferreira Sekiguchi, é exatamente essa vontade humanista revisitada, um zeitgeist (espírito de época) capaz de reabilitar valores já desacreditados presentes nas técnicas, nas disciplinas, e nos objetos do dia-a-dia. Esses valores que dão sentido às escolhas não aleatórias feitas pelo artista, geralmente se relacionam com uma questão de afetividade, de memória e intimismo que constituem a pesquisa onde o artista apoia parte de seu repertório, a começar pela leitura de teóricos como: Rudolf Steiner e Wilhelm Reich, e que podem ser vistos nos três momentos da exposição que acontece do Espaço Imaginário no dia 3 de Agosto, são eles: “Modelo para reconstrução de camisa”, que nasce da apreciação a um objeto aparentemente banal; como a camisa de listras laranja, as “16 rodas de oração”, onde o público é convidado a interagir diretamente com 16 objetos circulares com o objetivo de fazer a ligação do homem com o universo espiritualista através da arte - uma verdadeira celebração ao sincretismo, e os “Regeneradores” que são compostos por 17 caixas, onde é possível encontrar as pesquisas mais complexas do artista. Pautado na busca por objetos que partissem de certa coerência cientifica e que pudessem absorver e dissipar as energias negativas do ambiente externo e dos indivíduos, Júlio Ferreira Sekiguchi se aproximou de alguns experimentos do artista alemão Joseph Beuys, mesclando uma postura racional com uma atitude xamanística. É preciso tocar, sentir os estranhos aparelhos construídos por Sekiguchi, que tenta resgatar, a partir de certo conceitualismo, a arte com uma função muito além da estética, mas também curativa/ regeneradora.
Renata Gesomino.
Doutoranda na linha de História e Crítica da Arte pelo PPGAV-UFRJ.